A sensação de isolamento no trânsito e acidentes

Por Márcia Pontes.
Definitivamente, o dia em que acabarmos com a sensação de isolamento no trânsito alcançaremos os níveis de segurança que tanto desejamos. As pessoas passarão a compreender que não estão sozinhas, reconhecerão o outro, admitirão a sua existência e importância para as complexas relações e interações em via pública. Isso é fático, é real e pode ser constatado pela realidade mais próxima de você. Muitas atitudes das pessoas no trânsito denotam a dimensão do egoísmo, do individualismo e do territorialismo disputado, muitas vezes, a tapa (literalmente), no nosso trânsito. O fato é que muitos motoristas quando se vestem de carro, de moto e de outros veículos sentem-se sós, isolados no trânsito. Ignoram tratar-se de um espaço compartilhado, de muitas interações, socializações e negociações que, quando deixam de ser feitas, resultam em acidentes. O dia em que olharmos e reconhecermos que a nossa vida, inclusive, no trânsito, está ligada e depende do outro, quem sabe, começaremos a alcançar um nível de maturidade mais eficaz e eficiente que todas as campanhas educativas de trânsito juntas.

O homem é um ser social, gregário, e por este motivo não vive só, isolado do mundo e das outras pessoas. Sozinho o homem morre e definha, inclusive emocionalmente. Para além da definição do § 1º do artigo 1º do CTB de trânsito como a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga e descarga, trata-se de uma imensa teia de relações tecida pela vida. Essa mesma vida dizimada aos milhares todo ano e que vem transformando as vias públicas em necrotérios a céu aberto. Chamo de genocídio sobre rodas esse fenômeno mundial em que a humanidade dizima a si mesma.

O motorista que se veste do veículo que dirige e o incorpora como a segunda pele tende a isolar-se e a “achar” que está sozinho no trânsito. Muitos soltam aquele clichê de que pagou caro pelo veículo, que paga seus impostos, que tem direito disso e daquilo, como se só ele pagasse o próprio carro, moto, ônibus e caminhão, os impostos e seja o único protegido e amparado pela Constituição no capítulo dos Direitos Fundamentais em que o principal é o direito à vida.

Tem aquele mais arrogante que diz que o carro é dele, que dirige como quiser, que ninguém tem nada com isso e, muito menos, com o modo como ele dirige. Só que quando esse ser habilitado que pensa que está sozinho no planeta Terra provoca um acidente, ele mobiliza um aparato inteiro do estado para socorrê-lo. Independente do tipo de acidente que provocou, o ermitão do volante acionará uma equipe inteira de agentes de trânsito, de socorristas, médicos, enfermeiros, bombeiros, SAMU, de diferentes tipos de ambulâncias dependendo da gravidade do acidente e do tipo de resgate a ser feito. Ele mobilizará a emergência do hospital, deslocará equipes de enfermagem e de médicos que até então atendiam pacientes que adoeciam de causas naturais. Como não temos nada a ver com isso, seu egoísta?

No trânsito a sensação de isolamento é tanta que muitos não olham os retrovisores, não dão seta, não sinalizam antes a manobra e sequer se preocupam se o motorista que trafega atrás ou do lado dele entendeu a mensagem de que vai mudar de faixa. Eles não veem os pedestres, os ciclistas, porque não reconhecem, não admitem a sua existência no mundo do trânsito e na via. Ninguém enxerga quem (o pedestre, o ciclista) ou aquilo (a bicicleta) que não procura enxergar. A culpa do acidente? Será sempre do outro que estava onde não deveria estar na visão de quem se isola na carapaça de lata!

Música alta no carro tem o efeito nefasto de aumentar a sensação de isolamento e impede que o motorista ouça os sons naturais do trânsito como buzinas, sirenes, freadas bruscas e até os gritos da pessoa que atropelou ou de outros que gritam para avisá-lo que tem um corpo sendo arrastado na lataria do carro.

A sensação de isolamento é tanta que as pessoas só olham para a frente e deixam de trabalhar preventivamente a visão tridimensional e periférica. Sabe aquela olhadinha de cantinho de olho? Salva vidas!

Pedestre que atravessa a rua se jogando na frente dos veículos, distraído ao celular ou com fone de ouvido também vive a síndrome da megalomania e do isolamento em via pública. Justamente os pedestres, os que têm como pára-choque o próprio corpo!

O que dizer de muitos motociclistas, então? A moto é pequena em relação ao carro, menor em distância lateral, em comprimento, é mais rápida, ágil, passa por qualquer espaçico de nada! Passa mesmo? Muita gente confunde a representação da moto como quase acoplada ao próprio corpo, dando a mesma mobilidade individual que usamos para caminhar. Ledo engano! São eles, os motociclistas, o grupo que mais mata, morre, se fere e sequela os outros.

Não, eu paguei uma baba por esse veículo e vou dirigi-lo como eu quiser! Esse parece viver mais isolado ainda, no mundo de Lost!


Certamente, o X da questão no que se refere aos acidentes de trânsito e suas consequências, está aí: enquanto as pessoas continuarem a alimentar a sensação de isolamento no trânsito, a ignorar os outros, a tratá-los como ninguém, e, principalmente, enquanto não compreenderem que o trânsito é um espaço compartilhado por todos e que a vida de cada um depende do que o outro vai fazer, continuaremos a catar papel na ventania.

Não adiantará quebrar a cabeça e queimar a mufa tentando achar a estratégia ou abordagem educativa mais legal, mais bacana, mais eficiente. Não adiantarão as Semanas Nacionais do Trânsito temáticas, o Dia Mundial em Memória às Vítimas de Trânsito temático, o Maio Amarelo temático ou qualquer outra coisa que não coloque no topo a variável sensação de isolamento no trânsito.

As pessoas precisam se reconhecer como parte do fio da teia que tece a vida; precisam se reconhecer; se verem no trânsito, buscarem o olhar uma das outras, negociarem as preferências e abusar das gentilezas. Enquanto o fator humano não for colocado em primeiro lugar em tudo que se refere ao trânsito continuaremos a repetir até o desgaste a célebre frase do professor Reinier Rozestraten: “mais de 90% dos acidentes são provocados por causas humanas.” Tá bom, a gente já sabe. E o que estamos fazendo para não protagonizarmos o próximo acidente?

De tudo que pretendemos pleitear e “atacar” estrategicamente em nossas ações estamos esquecendo de uma coisa: a linguagem emocional adequada, resgatar a humanidade perdida. Estamos perdendo as nossas referências de felicidade, de educação, de amor, de respeito, de tolerância e de prioridades no trânsito. E a maior delas é e sempre continuará sendo a vida!

No trânsito todos temos direito à vida e à via. No trânsito ou na vida nunca estaremos só, cada vida é importante, sagrada, tem o mesmo valor e precisa ser respeitada e protegida. Pense nisso antes, durante e depois de ir para a via pública.
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