A sociedade dos bárbaros e dos inválidos

Por Márcia Pontes.

Diz a lenda que somos mais de 50 mil mortos no trânsito anualmente e mais de 700 mil inválidos que sobrevivem com algum tipo de sequela. Na boa e sem medo de errar: somos muito mais e isso não é lenda. É realidade diária, cotidiana, afeta milhares de famílias e ninguém está imune.

Os bárbaros da História eram os povos germânicos que habitavam as regiões Norte e Nordeste da Europa e Noroeste da Ásia na época do Império Romano. Ficaram conhecidos pela marca da violência em suas invasões, que por fim, derrubaram o Império Romano. Assim, anos de evolução depois, as expressões “barbaridade”, “barbárie” e afins continuam sendo usadas para tentar expressar algo violento, impiedoso, cruel e implacável. Pontualmente, expressões que vêm sendo empregadas cada vez mais em referência à violência das pessoas no trânsito.

Os bárbaros desempenham diversos papéis no trânsito. Os mais conhecidos são os motoristas que raramente dirigem de cara limpa e não raro combinam bebida alcoólica com algum outro tipo de droga. Não sabemos quem são os mais perigosos e cruéis: os bárbaros de cara torta ou os bárbaros de cara limpa no trânsito. Há também os bárbaros que dirigem sem habilitação porque não as tem ou porque lhes suspenderam ou cassaram o direito de dirigir.


Os bárbaros no trânsito não deixam nada a dever aos bárbaros e costumam ser ainda mais violentos. Mudaram-se as armas: os guerreiros selvagens dos livros de história empunhavam armas grandes como machados e espadas de duas mãos. Os bárbaros modernos empunham o volante dos motorizados e geralmente dividem a empunhadura com latas, garrafas de cerveja ou algum tipo de droga que consomem enquanto dirigem.

Os bárbaros do volante quando não empunham suas armas passam por cidadãos comuns, educados, respeitáveis e sorridentes. Há os bárbaros que são no volante como são em qualquer situação na vida: marrentos, arrogantes, egoístas, selvagens e capazes de uma fúria bestial acompanhada de imprudência e irresponsabilidade tanto quanto os bárbaros com cara de bonzinhos.

Os bárbaros da História degolavam cabeças e amputavam membros. Os bárbaros do volante atropelam em alta velocidade, arrastam motos, bicicletas e corpos por quilômetros. Eles também arrancam pedaços das pessoas, ferem, mutilam, matam e livram-se dos corpos pelo caminho.

Os inválidos? Quando não morrem são vítimas dos bárbaros. São os trabalhadores indo ou vindo para o trabalho que têm a desgraça de cruzar com um bárbaro ao volante em seu caminho. São crianças indo ou vindo da escola, são mães com bebês no colo ou no carrinho; são os pedestres, os ciclistas, os motociclistas e os outros motoristas. Não interessa a forma de vida, os bárbaros as aniquilam.


As vítimas dos bárbaros no trânsito nem sempre sobrevivem e passam o resto de suas vidas roubadas no fundo de uma cama, dependentes dos outros para tudo: comer, beber, para a higiene pessoal e vegetar. Os bárbaros quando atacam quase sempre saem ilesos e ferem-se superficialmente enquanto os inocentes pagam a conta de sua selvageria, imprudência e responsabilidade.

Os inválidos também se multiplicam no sofrimento: são os pais, as mães, os irmãos, os filhos, os amigos das vítimas condenados a viverem com o coração mutilado, com os olhos fundos e sem o mesmo brilho de antes.

Os inválidos somos cada um de nós, vítimas ou não dos bárbaros ao volante, incluindo a sociedade e os seus heróis da resistência que pregam a paz e pedem por um trânsito humano e seguro. Nessa guerra entre o bem e o mal somos muitos e as baixas têm sido muito maiores do lado dos inocentes.

Na sociedade dos bárbaros e dos inválidos em que nos transformamos, impera também o egoísmo, o individualismo, as trapaças, as pequenas e grandes corrupções no trânsito, a tolerância e a impunidade. Impera a anodinia, a falta de respeito, de cidadania, a falta de valores e de virtudes.

Nessa guerra no trânsito que mata mais que todas as guerras no Oriente, mais do que o câncer e todas as doenças vasculares juntas vivemos a pior espécie de genocídio que existe: o genocídio sobre rodas. É muita barbaridade junta!

Na história, as guerras sangrentas promovidas pelos bárbaros durou cerca de 2 mil anos, até que eles fossem derrotados e as Cruzadas tiveram importante papel neste sentido.

Talvez seja disso que precisemos: de iniciar a nossa verdadeira cruzada contra os bárbaros no trânsito. Uma cruzada cidadã, legal, multissetorial, social, penal, e que acabe com uma de suas armas mais fortes: o sentimento de impunidade.
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